Wednesday, September 02, 2009

Inocêncio perdeu a inocência

Após ‘pastelar’ por uns dez minutos de frente a um dos quadros, Inocêncio finalmente perdeu a paciência: “Não entendi porra nenhuma, essa merda é um borrão vermelho. Não tem um moinho aí nem fodendo”. A reação na cara da noiva era a reprodução perfeita do semblante enojado dos inúmeros ‘pseudo-cults’ que os cercavam. Ela suspirou, desolada, e lhe jogou o anel de diamantes na testa. Tudo acabado.
Enquanto tateava o congelador atrás de uma cerveja perdida, perguntava-se aonde ele próprio tinha se perdido. Em que parte de seus curtos trinta e poucos anos havia deixado de lado a falada ‘sensibilidade’ que tanto insistiam que não tinha. A verdade é que Inocêncio era um cético, mas nunca hipócrita. “Insensível é o cu da mãe. Vadia”.
Enquanto resmungava sozinho pela casa, deu de cara com um presente do afilhado, de anos atrás: um destes desenhos feitos na pré-escola. Inocêncio perdeu a carranca e riu com a ironia. O sobrinho, de quatro anos, tinha muito a ensinar a todos os expostos que tinha visto mais cedo. “Aqui os borrões não são de propósito, pelo menos”.
E foi logo após largar o papel de lado e proferir mais uma dúzia de sinônimos para “caralhos alados” que, de súbito, foi invadido pela idéia. Vingança. Doce, bela e sarcástica. E repousava ali, toda sua. Inocêncio perdeu o sono.
No dia seguinte, munido de telas e aquarelas, visitou a irmã. Tanto mimou o afilhado, o fazendo desenhar por uma tarde inteira, que em menos de três horas já colecionava quase vinte ‘obras’.
Inocêncio perdeu a poupança. A fez em cheque a um marchand, para reservar a famigerada galeria que lhe custou o noivado. Decidiu por não usar o próprio nome ou o do afilhado: fez-se S. Ribeiro. Soava-lhe misterioso e artístico o suficiente.
A semana correu e era chegada a hora da esperada vernissage. Sucesso absoluto. S. Ribeiro era “inocente”, “enérgico”, “incisivo” e autor de pinceladas “errantes” e “primais”. A crítica aplaudiu, a imprensa divulgou e S. Ribeiro virou sensação. A obra mais concorrida, ‘O Moinho’, foi aclamada como “visceral, honesta e de sensibilidade ímpar”. Nada saiu de lá desacompanhado de quatro zeros à direita.
Ouviu todo o relato do marchand. Após desligar, Inocêncio perdeu a compostura: ria histérico, de uma orelha à outra. S. Ribeiro tinha se tornado assunto obrigatório em cada reduto cult da cidade.
Foi tamanho o sucesso, que não se conteve e sucumbiu. Inocêncio perdeu o ceticismo. Decidiu-se por enveredar de vez para a coisa e investiu todo o lucro em viagens pelo Velho Continente, cursos de arte e um ateliê próprio. Respirou cores, formas, escolas e tomou gosto.
Após alguns meses, a nova exposição de S. Ribeiro era o burburinho da vez, outra vez. Estaria na maior das galerias e trazia quinze obras inéditas. ‘Amadurecimento’ era o que se vendia nos inúmeros releases sobre o esperado evento.
A exposição chegou e foi-se. E com ela, “foi-se a magia de S. Ribeiro”, diziam os críticos. “A inocência acabou”, lamentavam alguns. “O visceral e honesto não está mais lá, apenas petulância indigesta”, repetiam outros.
Frustrado, Inocêncio estava de volta à estaca zero: de novo tateava o congelador atrás de uma cerveja perdida, e perguntava-se, outra vez, aonde ele próprio tinha se perdido. Inocêncio perdeu a paciência, a noiva, a carranca, o sono, a poupança, a compostura, o ceticismo e todo o dinheiro. Inocêncio perdeu a inocência.

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Tuesday, September 01, 2009

O que sobrou da 'limpa'

Fiz uma "limpa" nas postagens antigas. Quis defenestrar uns artigos sem pé nem cabeça, ou pelo menos aqueles mais vexaminosos. Fiquei com dó de alguns, principalmente do trecho que "colo" abaixo, para que não se perca. Que este roteiro fique para a posteridade (ou para as traças digitais).

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“(...) Um herói desacreditado, sem o mindinho e com passado de operário, tem um sonho: ser presidente. Ele tenta uma, não dá. Tenta duas, nada. Tenta três, quase. Contrata um publicitário alcoólatra e viciado em rinhas-de-galo, compra ternos de grife e promete mundos e fundos aos banqueiros e empresariado.
Aí, sim, tenta a quarta e enfim consegue. O povo chora, a medrosa Regina Duarte é escorraçada e Diogo Mainardi ganha ‘bossa’ para quatro anos de crônicas”.

“(...) Mas o Governo do ex-operário não rende, sua bursite inflama e um dedo-duro, com nome de presidente americano, encrava. Nada dá certo. A oposição coloca alguns podres do poder à mostra e, rapidamente, tudo desanda. Falam em impeachment, cassações, corrupção e um monte de outras palavras complicadas que nosso herói desconhece”.

"(...) O final do roteiro ainda não foi escrito, mas acho que cabem umas assessoras decotadas, alguns anões, indivíduos com nomes compostos esdrúxulos, aviões repletos de dízimos dos fiéis, velhinhas morrendo em Taubaté e descarados com dinheiro na cueca. Acho que tem caldo para superprodução, quem sabe Spielberg ou um dos Salles não pega".

A Vaca sabia demais

Para duas irmãs que me divertem.

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Não restavam mais dúvidas: estava encurralada dessa vez. Fora flagrada no ato. A Vaca viu tudo, quietinha, sem se manifestar. Cachinhos já podia imaginar o que se passava na diabólica mente bovina, maquinando – ou ruminando – a melhor forma de se aproveitar do ocorrido. A Vaca sabia demais.
Há quem subestime a Vaca, com seu jeito calmo, sempre tranqüila, contente. Cachinhos jamais cometeria esse erro: sabia que por trás do couro malhado repousava uma mente ardilosa, vingativa, cruel. A Vaca a fez comer merda verde em uma ocasião, anos atrás, dizendo que era doce. Isso não se esquece.
Cachinhos sempre foi esperta, safa, marota. Mas a Vaca era experiente e seria uma adversária formidável. Não teria qualquer chance, mesmo do alto de seus sardentos ‘quase’ um metro e setenta, em derrotar a Vaca de frente. Muito mais forte que aparentava e perigosa com beliscões, diz-se que a Bovina poderia espancar até mesmo a Madonna – e só não o fazia porque era grande fã, talvez a maior do rebanho.
A Vaca, no entanto, estava muito relaxada ultimamente. Alguns diziam que já não tinha mais paciência com alguns touros falastrões e estaria a pensar em se mudar de colina: queria um pasto mais farto. A Vaca já chutava o balde há um tempo.
Cachinhos, decidida, resolveu se aproveitar: a previsível Vaca era fã de micareta. E no fim de semana, enquanto enfrentava uma fila no pasto para pular e mascar um Chiclete, foi surpreendida por uma cena incomum: um carro amarelo, de rodas grandes, rompeu pela multidão e traçou uma linha reta em direção à malhada. Antes que pudesse reagir, ali mesmo deitou-se a Vaca, ao som de “A fila andou”. Cachinhos passou o trator, literalmente.
Ao chegar em casa, aliviada com a queima de arquivo, quis relaxar: com um riso meio engasgado que lhe era peculiar, Cachinhos pegou uma lata de Antarctica na geladeira. Estava tão feliz a sardenta moleca, que nem notou o vulto atrás do sofá.
Sorrateiro e nas sombras, o visitante tinha um machado na mão. E logo após o estalo da lata ao se abrir, um batuque solitário e pesado anunciou que os cachos rolavam pelo chão da sala. Ninguém nunca soube os reais motivos do sombrio algoz de Cachinhos, nem como entrara ali. Suspeita-se de que soubesse de uma cópia da chave escondida em algum tapete.
A vizinha, que vira de relance o assassino deixar o local, disse que não o viu levar nada, exceto um pequeno pedaço de plástico, em formato de moeda, entre os dedos. Foi-se calmamente pelo corredor, resmungando algo sobre um golpe que tomara em um almoço...

Thursday, August 27, 2009

Estefânio, o 'ga-gago'

A primeira parte desse texto foi escrita há quase quatro anos e jaz aqui, para quem queira acompanhar do início. De qualquer forma, pode ser lido em sequência ou separado. Ou pode não ser lido, sem pretensões ou obrigações. É bom escrever de novo.

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O problema de Estefânio, ou pelo menos o maior deles desde que sua mãe o registrou com esse nome em um cartório no interior do Pará, é a sua ‘ga-ga-gueira’. Tem gente que sua frio quando está nervoso. Há os que se coçam e ajeitam o cabelo para lidar com a pressão. Existem, ainda, aqueles que batem os pés no chão ou batucam com os dedos na perna. Estefânio ‘ga-ga-gagueja’. Ele coça a cabeça também, de vez em quando.
Ser gago pode ser um problema. Estefânio jura que pode ser parte de um castigo divino, porque gaguejar costuma o atrapalhar nas piores horas. Dessa vez, no entanto, o Estefânio não podia gaguejar. Não podia, porque o sujeito que tinha um revólver trinta e oito prensado contra sua cabeça estava ficando impaciente.

– ‘Ma-ma-ma-mas’ eu ‘no-no-no-num’ to ‘enro-ru-ro-lando’ ninguém, eu sou ‘ga-g-gg-gá-gago’!

O marginal respondeu com um tapa no “pé” do ouvido de Estefânio. E depois de xingar a mãe, a irmã, o tio e o bigode do coitado, deu um ultimato:

– Se não abrir o caixa, eu vou atirar e você não gagueja nunca mais!

Estefânio respirou fundo. Muniu-se de toda a coragem que tinha e retrucou:

– ‘Ma-ma-mas’ é, é ... é ‘i-i-isso’ que eu to ‘diz-zzz-zendo’! O ‘ca-ca-caixa’ só abre com ‘pe-pe-pe-dido’ de voz!

O assaltante praguejou, socou o balcão e tornou a xingar algumas gerações de Estefânio. Reclamava de “que ‘birosca’ é essa que tem caixa ativado por voz” e “quem diabos coloca um caixa gago nesse serviço”. Depois de empurrar Estefânio para o lado e tentar por alguns minutos (sem sucesso) esmurrar, "coronhar" e, por fim, chutar a “boca” da registradora, o bandido deu-se por vencido e sentou-se ao lado de Estefânio, no chão do quiosque.

– Ô Gaguinho, o dono dessa ‘birosca’ é um ‘filha-da-puta’ mesmo. Mundo injusto, esse!

E desatou a relatar em como precisava do dinheiro para saldar uma dívida no morro. Dizia que não era assaltante, só um “cliente” azarado que ficara devendo para um dos traficantes das redondezas. Contou como arranjou a arma e atravessou toda a orla de Copacabana se decidindo por qual local arriscar o assalto. Com o fim da tarde, resolveu, no impulso, tentar um saque contra o primeiro alvo que visse pela frente.

– ‘Pé-p-é-p-péssima’ idéia! ‘Nu-nunca’ tem dinheiro aí...

O bandido puxou um maço e ofereceu um cigarro para Estefânio (‘obr-r-r-br-igado’). Logo, estavam jogando conversa fora e já riam como amigos de longa data. O marginal falava mais, Estefânio era bom ouvinte.
Alguns minutos se passaram e, após ouvirem o som de passos se aproximando e uma gritaria, olharam para a frente do balcão. Nesse momento, algumas coisas aconteceram ao mesmo tempo: um policial, armado com uma pistola na mão esquerda, precipitou-se por sobre o balcão, após tropeçar em um coco que ficou jogado na entrada quando Estefânio foi rendido, e deu de testa na registradora, que “sambou” e despencou de seu apoio. Ao mesmo tempo, Estefânio levantou-se e, com um gesto rápido, tomou a arma que o bandido tinha largado no chão para acender o cigarro.
Agora, Estefânio estava de pé, entre um corpo de um pê-eme com um galo na testa e uma registradora tombada e aberta: araras, onças e até peixes-boi escapavam pelas frestas. Dinheiro transbordava e enchia o chão.
Boquiaberto, o fracassado marginal fitava Estefânio com olhar incrédulo. Quando seus lábios esboçaram aflorar os primeiros xingamentos, o gago foi mais rápido:

– ‘Se-ssss-s-s-ssss-e’ fudeu.

Sunday, August 27, 2006

À base de cagada

Foi sem querer. Na verdade, a maioria das coisas acontece assim, meio na sorte, tudo esculpido pelo acaso, à base de cagada. Não digo isso por dizer, há exemplos que me respaldem.
Que tal Monet? Aquele, o francês impressionista. Pinturas maravilhosas, com um jeitão diferente, meio desfocado, uns “borradinhos”... E se alguém explicasse que estudos recentes comprovam que ele era, digamos, míope? E que todo aquele estilo impressionista não era exatamente um estilo, ora, é como ele via as coisas. No fundo ele até tentou fazer pinturas clássicas, coitado, mas a vista não ajudou. Foi gênio à base de cagada, o que não invalida a beleza da obra.
Na verdade, ouso dizer que é preferível ter sorte – e, com isso, cagar bastante – do que ser competente. Ninguém quer competência, hoje em dia. Privilegiado é o indivíduo que está lá, no lugar certo e na hora certa, e nem precisa se esforçar muito, cai tudo no colo. Bom mesmo é ser o famoso cagão.
O cagão é o verdadeiro vencedor, o maioral entre tudo e todos, sem suar ou se mexer muito. E, o que é melhor, na maioria dos casos nem sabe como realizou suas proezas. Elas simplesmente “acontecem”.
Que os críticos de plantão me perdoem e, por favor, não me entendam mal: em nenhum momento quis dizer que Monet fora uma fraude, um cagão sem talento. O francês me serviu, meramente, como uma ilustração de tese. Há exemplos de cagões de verdade, só não os cito por motivos políticos. Afinal, esse blog é uma mídia poderosa e muito visitada, não gostaria de alterar o rumo das coisas, ainda mais em época de eleição.
Imagina se eu digo que o Luís Inácio é um cagão, que perder o dedo foi uma dádiva que o poupou de anos de labuta, que a bursite é um presente pouco explorado e que a verticalização caiu no colo, assim, no local e hora convenientes? E se eu contasse que o Paulo Coelho é mago na base da cagada? Que o Gil é gênio por acaso? Que a Glória Maria dá sorte – ou mais – toda hora?
No fim, e no Brasil, tudo é feito assim, tudo acontece dessa forma: é cagada. Arrume seu trono e um bom jornal que, um dia, você chega lá.

Saturday, July 01, 2006

A morte do futebol brasileiro

Sento para escrever este texto, apossado de um sentimento indescritível. Digito cada palavra com pesar. Escrevo, sentindo que cada caractere posto na página me insulta, me afronta, zomba de mim. Escrevo para falar da morte de algo que me é caro, uma paixão irracional, que alimento desde a tenra infância. Escrevo para falar da morte do futebol brasileiro.
Primeiro, quis transformar estas linhas em algo leve, engraçado, para aplacar a dor que eu e outros 180 milhões fomos submetidos. Iria narrar uma dessas historinhas bobas, dizendo como uma conspiração da Casas Bahia, preocupada em ter de cumprir a promessa de vender televisores de plasma por R$ 1 caso o Brasil fosse campeão, sabotou nosso time. Mas estaria sendo leviano, estaria olhando para o outro lado e pondo a dor para baixo do tapete. E isso é impossível.
Nos noventa minutos transcorridos neste sábado, assistimos à morte da maior escola de futebol do mundo, dos pentacampeões, de nossa constelação verde-amarela. Há quem não encare o jogo como eu, mas, para este humilde apreciador do esporte, o futebol é o momento máximo do patriotismo, a Copa do Mundo é nosso impulso por guerras e heroísmos traduzido em algo sadio.
Não culpo nossos jogadores ou o Parreira. Não culpo os franceses, não culpo Zinedine Zidane ou Thierry Henry. Não culpo Deus, a Fifa ou a Nike. Culpo o sentimento. Sentimento que não chegou a tocar nenhum de nossos ilustres canarinhos nesta Copa, não os invadiu, não os inspirou. Se o tivesse feito, não seríamos obrigados a apreciar mais um passeio francês em nosso território – o futebol. Teríamos visto, no mínimo, um embate de forças, de igual para igual.
O que mais me entristece é que, hoje, sou obrigado a admitir que invejo os camaradas argentinos. Sinto isso por dois motivos. O primeiro, senti já no início da Copa, quando percebi que nosso maior jogador não é cultuado por seu povo, não é torcedor, não é patriota, é apenas mais um “cartola” que se limita a acenar e insinuar “achismos”, opiniões descartáveis e “pressentimentos”. O deles, bem, o deles se mostrou o inverso.
Por fim, invejo os donos da azul-celeste por seu espírito de luta, sua garra, sua vontade de entrar em campo e batalhar por cada espaço, por cada jogada. Os invejo por terem demonstrado espírito. Sob esses termos, a derrota é aceitável e jamais desonrosa. Não foi nosso caso.
Sento para escrever este texto e, ao seu fim, constato tudo isso. Choro copiosamente.

Monday, June 19, 2006

Nos bastidores

Começou muito cedo, na época em que ainda usava fraldas. Na creche, enquanto os outros bebês bradavam por mamadeiras e colo, preferia agir politicamente, sempre quietinho, para obter favores das babás, que o municiavam com as melhores chupetas e papinhas. Agia nos bastidores.
Seu talento inato, no entanto, tornou-se evidente na época da escola. Engajava-se em todas as atividades do grêmio de estudantes, ávido por fazer contatos – o que, mais tarde, chamaria de networking. Não demorou para destacar-se, superorçando todos os serviços terceirizados necessários para a organização dos eventos da escola. Até o fim do ano letivo, as notas fiscais frias encheriam seu bolso externo da mochila. Transformou todos, fossem DJs ou empreiteiros, em amigos de longa data.
Ao ingressar na universidade, aos dezoito, filiou-se ao seu primeiro partido. Começou no PMDB, todavia, mais tarde, com a chegada dos anos e da experiência, perceberia ser muito mais frutífero estar perfeitamente em cima do muro do que balançar as pernas de um lado para o outro, sem objetividade. Acabaria um Tucano, dos bons.
Movimentou-se com elegância, durante o ensino superior, entre os diversos diretórios estudantis. Tornou-se líder pelo tempo de um mandato e, quando este findou, descobriu o grande prazer de aninhar-se como braço direito e, discretamente, influenciar o pêndulo das decisões para o flanco mais conveniente.
Após a graduação, viria a primeira candidatura. Venceu com folga a eleição para câmara estadual, tornando-se um dos queridinhos de seu partido. Já era tido como promessa para o senado antes de completar seu primeiro mandato. Tornou-se senador, evidentemente, e este seria o divisor de águas em sua brilhante carreira.
Hoje, a sabedoria fala mais alto que o ímpeto por glórias ou inquéritos parlamentares. Aos poucos, retornaria a uma tendência antiga. Atualmente, não é visto, prefere o plano de fundo ou o fundo dos panos. Se jamais viveu a emoção de discursar em uma CPI ou de negar veementemente uma denúncia, conhece a verdadeira consagração de estar sempre no cume, independentemente de mandatos ou estes prazos mundanos estabelecidos pelo poder cego.
Há quem diga que não é dessa estirpe de brasileiros, tão dependentes de circos, pizzas ou discursos inflamados. Aliás, há quem diga que nem é brasileiro, só nasceu aqui por acaso. Opera por trás das cortinas, maquinando tudo aquilo que o público jamais saberá nas manchetes, só nos livros de teorias conspiratórias. Opera nos bastidores...

Saturday, June 17, 2006

Eu confio no Ronaldo

Eu confio no Ronaldo. Não é porque ele tem um histórico de campeão, de superação em momentos improváveis, ou por ele ser o melhor atacante do mundo. É pelo simples motivo de que ele é o Ronaldo, ora. Eu confio no Ronaldo, porque ele é o Fenômeno, porque ele decide. Eu confio no Ronaldo porque ele funciona, porque, em 2002, ele ganhou uma Copa do Mundo para o Brasil, quase sozinho. Eu confio no Ronaldo, mesmo quando dizem que ele está gordo ou sem ritmo, porque, no campo, ele é soberano, é craque capaz de parar o tempo, de abafar o grito da torcida adversária e de fazer tremer os zagueiros. Confio no Ronaldo porque ele é, sobretudo, Brasileiro, dono de um futebol premiado, em três ocasiões, como o melhor do mundo. Eu confio no Ronaldo porque ele não é Nilsterooy, Del Piero, Shevchenko, Saviola, Klose ou Owen. Ele é o Ronaldo. E quando ele trouxer mais essa Copa para casa, quero ouvir o seu pedido de desculpas.